11.9.15


um final plausível

deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona
mais.

deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal
ou ler um romance.

é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios [...]

(Bukowski)

25.8.15


Tentem ser livres: morrerão de fome. A sociedade só os tolera se são sucessivamente servis e despóticos; é uma prisão sem guardiões, mas da qual não se escapa sem perecer. Para onde ir, quando só se pode viver na sociedade e quando já não se tem instintos, e quando não se é tão arrojado para mendigar, nem tão equilibrado para entregar-se à sabedoria? No final das contas, continua-se a ser como todo o mundo, fingindo atarefar-se; resigna-se a tal extremo graças aos recursos do artifício, entendendo que é menos ridículo simular a vida do que vivê-la.

...o pacto dos símios está para sempre selado; e a história segue seu curso, horda esbaforida entre crimes e sonhos. Nada pode detê-la: mesmo os que a execram participam de sua carreira.

(Emil Cioran)

3.8.15

And if you hear as the warm night falls
The silver sound from a time so strange
Sing to me
Sing to me

https://www.youtube.com/watch?v=C0YANM9lz4c

30.1.15

Pensei que era fácil desmembrar-se.
Imaginei fácil, ante o terror, o tiro de socorro. A cartada final.
Corri meu desespero léguas adiante. Ali, onde o futuro se despega do homem
como uma casa cujas portas fecham-se às nossas costas,
os aposentos morrem entre suspiros de "nunca mais",
sem tempo de corvos nos umbrais.

Quem era eu nesse quarto? Meus olhos - e só eles -
ressonavam.
Uma vaga cantiga de infância bruxuleava,
e toda a minha humanidade era esse farrapo.
O escuro convém - mas sem sono ou reticências...
(Glória a Deus houvesse bocejos!)

Um homem, ante o terror, mata - ou morre.
Tiro, corda ou veneno? Ah, por amor aos familiares
o que for menos vermelho...

27.1.15

Cada indício era real e se fartava de símbolos. Eram reais as mães abandonadas, com filhos impossivelmente reais e distantes; eram reais as dançarinas amputadas, quando o anúncio de neon na avenida principal acentuava a catástrofe dos estilhaços por vir; eram reais as crianças bêbadas, que vagavam de bar em bar com uma garrafinha de pinga com limão entre os dedos. Talvez se eu sonhasse pudesse sacudir tudo de mim ao acordar, como um cachorro encharcado - quando ao menor indício de liberdade, quando ao menor vacilo do demiurgo, o corpo se desatarraxa do mal numa dança frenética, os pelos eriçando-se como pássaros assustados. Mas tudo era real, demasiado real (se eu me beliscasse com a força necessária talvez a carne rebentasse e o sangue, como um detento afoito, fizesse o caminho necessário do corpo para a vala e aí, ah, quem sabe aí, um delírio, uma perda de sentidos, uma manifestação onírica de dançantes imagens superpostas - quem sabe, aí sim, o sonho).

25.1.15

Consumação da dor

Eu até consigo ouvir as montanhas
o modo como elas dão risada
de cima a baixo em suas encostas melancólicas
e lá embaixo na água
os peixes choram
e toda a água
são suas lágrimas.
Eu ouço a água
nas noites em que saio para beber
e a tristeza se torna tão grande
eu a ouço no meu relógio
ela se torna maçanetas na minha gaveta
ela se torna papel no chão
ela se torna calçadeira de sapato
um bilhete de lavanderia
ela se torna
fumaça de cigarro
escalando uma capela de vinhas escuras...

pouco importa

muito pouco amor não é tão ruim
ou muito pouca vida

o que conta
é esperar apoiado em paredes
eu nasci pra isso

Eu nasci para agitar rosas nas avenidas
por onde passam os mortos.

(Bukowski)

18.12.14

Mantendo as Coisas Plenas

Num campo
Sou a ausência
de campo.
É sempre assim.
Onde quer
que eu esteja
sou o que falta.

Quando ando
separo o ar
e o ar
sempre volta
para preencher o espaço
onde meu corpo esteve.

Todos temos razões
para andar.
Eu ando
pra manter as coisas plenas.

(Mark Strand. Tradução de Bernardo Carvalho)

16.12.14


Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo. Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso?
Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

(Hilda Hilst. Cantares)

6.11.14

refenzinho:
o sorriso, a fleuma:
refenzinho.

a boa disposição
para estar em ordem,
caber em sins:
refenzinho.

a mulher, o cachorro,
o futebol com os amigos:
refenzinho.

após gordo almoço,
sono, cafezinho:
refenzinho.

essa alegria sob alvará,
subscrita a permanência:
refenzinho.

haverá aí um homem
na solidão da noite
na clausura do banho
no cárcere do tráfego
onde um grito irrompe?
(irrompe?)
haverá, no gesto funcional,
a pluripotência do soco?

ou só mesmo a colônia
a camisa alinhada
a gramática do corpo,
refenzinho?


21.10.14

estética da criação pré-verbal

o silêncio é uma ranhura
o frêmito apenas auscultado
sob o ovo elipsado.

o silêncio é de casca
e no oco
no vácuo
uma palavra-partícula se insurge
e - Bang! - o universo surge.

25.8.14

de onde veio este poema
não havia nada
de onde veio este poema.

de onde veio este poema?
há um tom opaco
sob as tramas deste poema.

de onde veio você, opala
fazer vez em um poema
que versava sobre o nada?

de onde veio este poema
fulgiu uma adaga
rasgou o ar na noite fria

do poema.

17.6.14

26.2.13

Alguém pra chamar de eu

Eu sou esse que se esgueira, cujos atos são um indício de que há uma desordem, no todo controlável. Eu sou esse que profere sons inaudíveis quando a desordem irrompe num contexto de paz camuflada. Eu sou esse que trama as revoluções, que age quando é certo e que erra quando apenas o erro explica as variáveis absurdas da vida. Eu sou esse capaz de seduzir infalivelmente aqueles a quem a vida já sussurrou algumas infâmias – mas só aquelas que são ditas em silêncios de chumbo e luares infiltrados. Eu sou aquele cujo passado posterga infinitamente as projeções do presente e sublima numa epifania os contornos do futuro. Eu sou aquele para quem o futuro só admite o choro ou o riso bufão. Eu sou aquele para quem o confessionalismo é a única saída e a maior vergonha a ser exposta em vitrines que se espatifam ao som da menor dissonância. Eu sou aquele para quem a dissonância é uma ótima saída – a melhor de todas -, contanto que ela não esbarre em nada que se pareça com as contingências da vida. Eu sou aquele para quem o acaso acena como uma ótima possibilidade de desfecho de romance, enquanto o destino martela contas a pagar com a variável racional de números e casas decimais. Eu sou aquele que inventa para si e pavoneia para os outros alguma satisfação que não tem nada a ver com o expressionismo grotesco de todo santo dia. Eu sou aquele para quem o expressionismo não passa da deformação de um grito dado num poço tapado. Eu sou aquele que ama conforme a alegoria de determinados símbolos jamais confessáveis na cartilha da boa e velha semiótica dos amores. Eu sou aquele que chora por uma cena kitsch e que odeia os bons sentimentos, sobretudo quando transpostos para a íris impoluta de um cachorro ou de um gato. Sou aquele para quem os pássaros agonizam em tardes rubras e a quem declaram guerra em silêncio. Eu sou aquele em quem as mães confiam cegamente, para quem os filhos confessam suas derrocadas e através de quem os pais fingem – mal - que a vida não é uma sequência derrisória de fatos. Eu sou nada que valha a pena ser dito, até porque uma comédia sempre cai melhor que um drama. Fim.