13.12.21

 há tantos livros tantos

e para cada um deles uma infinidade de linhas -

em cada linha uma vasta composição

escondendo séculos de vida e morte.


há tantos homens tantos

e para cada um deles uma infinidade de sombras -

em cada sombra uma vasta promessa

diluída em silêncios & feixes de luz.


não: nada importa

senão diminuir o passo frente ao precipício

e contemplar em face ao delírio de flores na escarpa

a queda.

26.3.21

entendo que é preciso o mistério 
que me fará não poder descrever 
teu seio 
tua boca
a curva do teu pescoço: 

o teu corpo substantivo 
morando nele a pergunta 
a dor ancestral 
o abismo composto de um 
isto

20.2.21

traço um painel 

fino 

em brisa.

o vento aconchega as palavras

em dois ou três delírios.


durmo no senão das missas,

no preceito enrugado das filas

:

algo queima do outro lado.


observo.

20.6.20

talvez porque desistir também seja um ato
deponho as armas
e deslizo entre o mínimo:

veredas
sussurros
um quadro antigo preso
na retina do tempo.

como isto de sermos
senão por aquilo que se denega:
os objetos do porão.

remanejar
à faca sem gume
à boca já seca
à semente já rota
um passo atrás

para o futuro.

16.6.20

pergunta aberta

eu?

22.2.20

então a voltou a escrever como quem volta dos mortos
e mais preciso, porque despojado
da precedente histeria -
ah o jovem louco partira-se
cansado
e só uma lágrima cristalizada
um fio cortante da dor
perpassava-o
(sabendo que nada é importante
nada, nem escrever
nem estar vivo)

12.2.20

Se eu não terminar ungido
Se eu não correr do perigo
Se eu não rezar só por egoísmo

Se eu dormir sem sonhos

Se eu não abraçar o inimigo
Se eu não amar por vaidade
Se eu me envaidecer sozinho

Se eu cuspir o excesso

Se eu não me abster do hálito da noite
Se eu não sorrir de desespero
Se eu não desesperar na morte

Já está bom.

1.12.18

não tenho o tato dos deuses
nem a fúria das crianças
:
a sorte me despiu.

pela janela, os olhos
dançam entre frutos de árvores
e arlequins.

já os dedos trançam um destino,
esquecidos de si
e de mim.

5.1.18

"[...] Já escrevi sobre esse corpo, sobre as dores que causei a outros e as que eu mesmo me impus, gravei com fogo meus poemas sobre minha pele. Só os doentes, os fracos, os feridos, são capazes de criar obras mestras. Sinto que escrevi a partir de um certo irreparável desespero e, ao mesmo tempo, a partir de uma irrefreável alegria. Uma alegria estranha porque é como se nascesse da dificuldade de sermos felizes. Do encontro desses fantasmas nasce minha escrita. A escrita é como as cinzas que restam de um corpo queimado. Para escrever é preciso queimar-se inteiro, consumir-se até que não reste nem um fragmento de músculo nem de ossos nem de carne. É um sacrifício absoluto e ao mesmo tempo é a suspensão da morte. É algo concreto, quando se escreve a vida fica suspensa e, portanto, fica suspensa também a morte. Escrevo porque é meu exercício privado de ressurreição. [...]"

Raúl Zurita, poeta chileno.

20.3.17

Você, repisado. Dilacerado. Como uma conta que não fecha. Há a fabulação diária - um sol no qual é preciso crer -; uma renitência absurda, infame, heroica. Você se surpreende por ainda, no final das contas, ser capaz de sair da cama, compor gentilezas, fabular o humano; mesmo que em cada palavra ressoe o vazio, o grito, coisa-sem-nome entalada. Você não poderia, nem que quisesse, dar nome ao inferno: seu grande propósito é morrer entalado.

16.9.16

a escrita ainda é o que sobra.

nas sobras dela o destino cisca suas migalhas.

em cada migalha há um prenúncio.

o prenúncio é a porta-palavra de onde se parte.

o rio, no entanto, não deságua em nenhum mar.

há um fluir e um marulhar e uma cristalização

de seres que deslizam sob seu mistério.

todo mistério é uma derrocada antecipada:

é necessário despir-se de deuses e metafísicas

pois todo o oculto dorme sob o sangue.

de resto, nada mais.
sim senhora adornadora de sentidos
sim senhora domesticadora de trens
alucinatórios
o mundo cedeu os demônios mentiram
as rezas quebrantos maledicências
nos conduzem
sim vamos combalir senhora
pela voracidade dos vermes que ora
regurgitam
sua baba
- ainda não é hora -
sim os vermes a resiliência
o vírus adormecido no tempo
a catacumba no fundo dos olhos
um céu já desprovido do branco
um sangue já desprovido do vermelho
uma morte já desprovida do luto
senhora.

15.9.16

e já não há mais rotas
estamos rotos
sem pouso -
a letra é morta.

a dança acrobática
o riso louco
o passo mouco -
nada fere a casca.

a rima, se há,
se enquadra no poema -
há metro
diagram-
ação org
anicidad
e poética

fugi
                   fugi
                                                                       fugi

para onde

?

31.7.16


o papa em auschwitz

o papa esteve em auschwitz.
algo do papa esteve em auschwitz
quando suas mãos tocaram a pedra fria
já desvestida do horror.

o papa esteve em auschwitz
e uma criança e um santo
e o judeu esfomeado
clamaram em sua divinizada cabeça.

em auschwitz, o papa:
o rito da dor e da misericórdia
encontrou rostos contritos
e o vento lavrou cópia de tudo.

(câmeras, muitas câmeras,
flashes e tempo real e trajes a rigor
quando um papa em auschwitz)

em auschwitz o papa
de uma indumentária imaculada
encontrou bocas para as suas mãos
encontrou o papamóvel para as suas pernas

o papa não encontrou deus.

30.7.16

registro

lembro de uma vez ter escrito teu nome em pedra.
tu não sabes que escrevi
teu nome em pedra.

puro engano: hoje sei
que a pedra nada sabe do teu nome
nem teu nome - posto que não sabes - dela.

a pedra permanece, mercê de contratempos,
ígneas concavidades
e um registro alheio à sua natureza.

estranhos:
três seres hoje descompactados
além de um estrago
no peito
na pedra.

pois que me tornei o arauto do oco
do desplante
do descaso
da ferida -

do silêncio dito em mordidas
no pão seco
na palavra utilitária
no aceno desvalido.

sonâmbulo em vigília
abortado de contiguidades
assassinado sem vestígios -

há um frio de que não me abrigo
há um calor de que não disponho
há uma fome em que me entranho

e me estranho, ainda, apesar-de, estar.

11.7.16

Talvez a descoberta partilhada a medo
E o tato
O cheiro-húmus da tua boca
Possam me refazer me deslocar
Dali onde tudo era silêncio.
E como ficou chato ser moderno. 
Agora serei eterno. 

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno, 
a vida eterna, 
o fogo eterno. 

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho. 

Eternalidade eternite eternaltivamente
                   eternuávamos
                           eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno. 

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome 
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e 
                                     [nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
                                                [passageiras as obras. 
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
                                                [mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
                                                [afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios. 
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
                                               [essência
ou nem isso. 
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
                                               [pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como
                                             [uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

- Drummond.

26.1.16


Falar de poesia, como coisa ainda viva
Contornar a si mesmo - coisa ainda viva -
Aparando os excessos do eu
Divergindo da voz no instante mesmo
em que a voz nasce, cresce, zumbe.

Calar a poesia - porque o tempo urge
e é feroz -
Em cada golpe de faca um ultimato
ao lirismo podre de velho.

Pelas ancas nuas do Abismo
os amores jamais existirão:
sob uma lua sanguinolenta,
em transes de fúria,
cadáveres do passado esmurram vidros.

:::AVISO:::
Procura-se no átimo do soco
Nas vítimas que jazem em sacos
ESSA voz.


14.12.15


VERSOS À BOCA DA NOITE

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome...Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação da minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

e tanta indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela,

e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a idéia do passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? em ti?
que palavra escutaste, e onde, quando?
seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.

                                                          Carlos Drummond de Andrade