29.12.25

Como se quiere a un gato

 Amar a las personas

como se quiere a un gato:

con su carácter y su independencia,

sin intentar domarlo,

sin intentar cambiarlo,

dejando que se acerque quando quiera,

siendo feliz

con su felicidad.


Javier Salvago


27.12.25

Nuit

 Tudo se eterniza na noite -

o contorno de teus cabelos

o medo ancestral

a morte.


Tudo promete, a noite -

recomeços, vencido

o abismo do sono;

o apagar das cicatrizes

a chama áurea

do teu corpo.


Noite: 

cão de guarda

jardim de enigmas

destino último

                       do Universo.


21.11.25

dentro das horas

conjuro a tarde:

um rio passa dentro de mim.


nenhum dever, o sol

pousado na grade,

vadios pousados nas folhas.


um bater de asas ao longe.

outra passagem se desenha

na camuflagem de ouro...


(o barco

              no rio que há mim

                                            parte...)

                    

16.11.25

Moderno

As coisas grandes ficaram para trás -

hoje olhamos, cansados,

a mala por fazer.


A cada dia

mais poeira acumulada:

recalculamos

o eterno movimento.


Olhamos para cima

mas as nuvens, em suas variações,

sempre formulam a mesma frase.


Sísifo ao menos

podia contemplar 

as grandes peripécias

da pedra durante a queda,


e a vista do topo.

8.10.25

Oferenda

te ofereci conforto

à maneira usual:

palavras frases sorrisos

um sol canhestro

desenhado em folha velha.


me ofereci

como quem diz:

toma, este corpo

em tuas mãos em tua sede

há de ter algum

proveito.


o mais correto seria:

te ofereço meu silêncio

e a vista destas chagas

mas isso não sei como

dizer.

7.10.25

Sopro

 Abri a janela sem saber onde estava:

olhei o mundo como (talvez?) 

um recém-nascido.

Tinha consciência da minha inconsciência.

Demorei-me naquele momento

poupando os olhos,

rastreando, palmo a palmo,

os objetos.

Cada sensação me protegia

sob a casca da manhã.


E então, entendi,

e o entendimento

tudo escureceu -

como quem desaba de um precipício

como quem descobre

sob a pele 

um velho personagem.

11.5.25

Sobrevivência

Tem coisas a que a gente se apega. Por necessidade, sobrevivência. Às vezes somos capturados na distração: uma luz incidindo obliquamente, de forma a nos causar algum tipo de maravilhamento ótico; um cheiro bom, vindo de longe, talvez da casa perdida da infância. A vida, sem essas distrações, seria insuportável. Sem elas, não existiria poesia. 

Tudo isso se dá no vácuo. Não existe no discurso oficial da Vida. É como um detalhe marginal incapaz de inspirar grandes narrativas. Olhe de perto, bem de perto. Ou olhe de longe, de modo que as coisas se fundam, e em tudo exista a implicância de tudo.

São as duas maneiras possíveis de olhar. 

29.4.25

Voltei apenas para falar de um sonho

Tive um sonho lindo. Estava em lugar inóspito, incultivado, que parecia a Praça da Matriz. Então pessoas começaram a chegar para cuidar do espaço. Logo, tudo começou a frutificar. Havia verduras. Era como ver, em tempo recorde, com trabalho, dedicação e amor, a vida florescendo.

Alguém questionava tudo aquilo e eu explicava que antes o local estava abandonado. Porém, agora, havia alimento. E muito significado. Eu estava feliz.

De repente, encontro um tio meu, já falecido. Em vida me pareceu nunca se encaixar em lugar nenhum. Lá ele tinha uma perua e vendia algum produto - não lembro bem qual. Ele trabalhava, assim como os demais. O dia era luminoso e do ponto mais alto do terreno eu podia ver a harmonia e beleza de tudo quanto se realizava ali.

Foi um sonho lindo. Eu estava feliz. 


28.1.25

 Um manacá na parede

Um quadro balançando

ao vento.