Amar a las personas
como se quiere a un gato:
con su carácter y su independencia,
sin intentar domarlo,
sin intentar cambiarlo,
dejando que se acerque quando quiera,
siendo feliz
con su felicidad.
Javier Salvago
Amar a las personas
como se quiere a un gato:
con su carácter y su independencia,
sin intentar domarlo,
sin intentar cambiarlo,
dejando que se acerque quando quiera,
siendo feliz
con su felicidad.
Javier Salvago
Tudo se eterniza na noite -
o contorno de teus cabelos
o medo ancestral
a morte.
Tudo promete, a noite -
recomeços, vencido
o abismo do sono;
o apagar das cicatrizes
a chama áurea
do teu corpo.
Noite:
cão de guarda
jardim de enigmas
destino último
do Universo.
As coisas grandes ficaram para trás -
hoje olhamos, cansados,
a mala por fazer.
A cada dia
mais poeira acumulada:
recalculamos
o eterno movimento.
Olhamos para cima
mas as nuvens, em suas variações,
sempre formulam a mesma frase.
Sísifo ao menos
podia contemplar
as grandes peripécias
da pedra durante a queda,
e a vista do topo.
te ofereci conforto
à maneira usual:
palavras frases sorrisos
um sol canhestro
desenhado em folha velha.
me ofereci
como quem diz:
toma, este corpo
em tuas mãos em tua sede
há de ter algum
proveito.
o mais correto seria:
te ofereço meu silêncio
e a vista destas chagas
mas isso não sei como
dizer.
Abri a janela sem saber onde estava:
olhei o mundo como (talvez?)
um recém-nascido.
Tinha consciência da minha inconsciência.
Demorei-me naquele momento
poupando os olhos,
rastreando, palmo a palmo,
os objetos.
Cada sensação me protegia
sob a casca da manhã.
E então, entendi,
e o entendimento
tudo escureceu -
como quem desaba de um precipício
como quem descobre
sob a pele
um velho personagem.
Tem coisas a que a gente se apega. Por necessidade, sobrevivência. Às vezes somos capturados na distração: uma luz incidindo obliquamente, de forma a nos causar algum tipo de maravilhamento ótico; um cheiro bom, vindo de longe, talvez da casa perdida da infância. A vida, sem essas distrações, seria insuportável. Sem elas, não existiria poesia.
Tudo isso se dá no vácuo. Não existe no discurso oficial da Vida. É como um detalhe marginal incapaz de inspirar grandes narrativas. Olhe de perto, bem de perto. Ou olhe de longe, de modo que as coisas se fundam, e em tudo exista a implicância de tudo.
São as duas maneiras possíveis de olhar.
Tive um sonho lindo. Estava em lugar inóspito, incultivado, que parecia a Praça da Matriz. Então pessoas começaram a chegar para cuidar do espaço. Logo, tudo começou a frutificar. Havia verduras. Era como ver, em tempo recorde, com trabalho, dedicação e amor, a vida florescendo.
Alguém questionava tudo aquilo e eu explicava que antes o local estava abandonado. Porém, agora, havia alimento. E muito significado. Eu estava feliz.
De repente, encontro um tio meu, já falecido. Em vida me pareceu nunca se encaixar em lugar nenhum. Lá ele tinha uma perua e vendia algum produto - não lembro bem qual. Ele trabalhava, assim como os demais. O dia era luminoso e do ponto mais alto do terreno eu podia ver a harmonia e beleza de tudo quanto se realizava ali.
Foi um sonho lindo. Eu estava feliz.