27.1.26

 "Ser-me-ão reconhecidos se condensar em quatro teses uma ideia tão importante e tão nova: facilito assim a compreensão, provoco assim a contradição.

Primeira proposição. As razão pelas quais se chamou "este" mundo um mundo de aparências provam, pelo contrário, sua realidade - outra realidade é absolutamente indemonstrável.

Segunda proposição. Os sinais distintivos que foram atribuídos à verdadeira "essência das coisas" são os sinais característicos do não-ser, do nada; dessa contradição se edifica o "mundo-verdade" como mundo verdadeiro: e é com efeito o mundo das aparências enquanto ilusão de ótica moral.

Terceira proposição. Falar de um "outro" mundo distinto deste não faz nenhum sentido, admitindo que não temos em nós um instinto dominante de calúnia, de amesquinhamento, de suspeita contra a vida: neste último caso, nos vingaremos da vida com a fantasmagoria de uma "outra" vida, de uma vida "melhor".

Quarta proposição. Dividir o mundo num mundo "real" e um mundo das "aparências", seja à maneira do cristianismo, seja à maneira de Kant (um cristão pérfido, afinal de contas), não passa de uma sugestão da decadência, um sintoma da vida declinante... O fato do artista ter em maior apreço a aparência que a realidade não é uma objeção contra esta proposição. De fato, aqui "a aparência" significa realidade repetida, uma vez mais, mas sob forma de seleção, de reforço, de correção... O artista trágico não é um pessimista, ele diz sim a tudo que é problemático e terrível, é dionisíaco..."

(Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos". Trad. de Carlos Antonio Braga)

2.1.26

Carrossel

Dançam, sobre a mesa posta,

os meus fantasmas.

Dançam, inadvertidos,

servem-se como lhes convém.


Ninguém os convidou

(tampouco achou-se prudente

que esses lençóis de melancolia

habitassem hora tão pura),


mas ficam. Contam segredos

ao pé do ouvido, disfarçam-se

de margaridas. Um vento

sopra o frio lá fora.


Entre ficar e levantar-me, 

fico. São histórias assombradas

que à meia-noite hão de passar,

como tudo

                  passa.

29.12.25

Como se quiere a un gato

 Amar a las personas

como se quiere a un gato:

con su carácter y su independencia,

sin intentar domarlo,

sin intentar cambiarlo,

dejando que se acerque quando quiera,

siendo feliz

con su felicidad.


Javier Salvago


27.12.25

Nuit

 Tudo se eterniza na noite -

o contorno de teus cabelos

o medo ancestral

a morte.


Tudo promete, a noite -

recomeços, vencido

o abismo do sono;

o apagar das cicatrizes

a chama áurea

do teu corpo.


Noite: 

cão de guarda

jardim de enigmas

destino último

                       do Universo.


21.11.25

dentro das horas

conjuro a tarde:

um rio passa dentro de mim.


nenhum dever, o sol

pousado na grade,

vadios pousados nas folhas.


um bater de asas ao longe.

outra passagem se desenha

na camuflagem de ouro...


(o barco

              no rio que há mim

                                            parte...)

                    

16.11.25

Moderno

As coisas grandes ficaram para trás -

hoje olhamos, cansados,

a mala por fazer.


A cada dia

mais poeira acumulada:

recalculamos

o eterno movimento.


Olhamos para cima

mas as nuvens, em suas variações,

sempre formulam a mesma frase.


Sísifo ao menos

podia contemplar 

as grandes peripécias

da pedra durante a queda,


e a vista do topo.

8.10.25

Oferenda

te ofereci conforto

à maneira usual:

palavras frases sorrisos

um sol canhestro

desenhado em folha velha.


me ofereci

como quem diz:

toma, este corpo

em tuas mãos em tua sede

há de ter algum

proveito.


o mais correto seria:

te ofereço meu silêncio

e a vista destas chagas

mas isso não sei como

dizer.

7.10.25

Sopro

 Abri a janela sem saber onde estava:

olhei o mundo como (talvez?) 

um recém-nascido.

Tinha consciência da minha inconsciência.

Demorei-me naquele momento

poupando os olhos,

rastreando, palmo a palmo,

os objetos.

Cada sensação me protegia

sob a casca da manhã.


E então, entendi,

e o entendimento

tudo escureceu -

como quem desaba de um precipício

como quem descobre

sob a pele 

um velho personagem.

11.5.25

Sobrevivência

Tem coisas a que a gente se apega. Por necessidade, sobrevivência. Às vezes somos capturados na distração: uma luz incidindo obliquamente, de forma a nos causar algum tipo de maravilhamento ótico; um cheiro bom, vindo de longe, talvez da casa perdida da infância. A vida, sem essas distrações, seria insuportável. Sem elas, não existiria poesia. 

Tudo isso se dá no vácuo. Não existe no discurso oficial da Vida. É como um detalhe marginal incapaz de inspirar grandes narrativas. Olhe de perto, bem de perto. Ou olhe de longe, de modo que as coisas se fundam, e em tudo exista a implicância de tudo.

São as duas maneiras possíveis de olhar. 

29.4.25

Voltei apenas para falar de um sonho

Tive um sonho lindo. Estava em lugar inóspito, incultivado, que parecia a Praça da Matriz. Então pessoas começaram a chegar para cuidar do espaço. Logo, tudo começou a frutificar. Havia verduras. Era como ver, em tempo recorde, com trabalho, dedicação e amor, a vida florescendo.

Alguém questionava tudo aquilo e eu explicava que antes o local estava abandonado. Porém, agora, havia alimento. E muito significado. Eu estava feliz.

De repente, encontro um tio meu, já falecido. Em vida me pareceu nunca se encaixar em lugar nenhum. Lá ele tinha uma perua e vendia algum produto - não lembro bem qual. Ele trabalhava, assim como os demais. O dia era luminoso e do ponto mais alto do terreno eu podia ver a harmonia e beleza de tudo quanto se realizava ali.

Foi um sonho lindo. Eu estava feliz. 


28.1.25

 Um manacá na parede

Um quadro balançando

ao vento.

16.5.24

Voltei para os ermos e para

a poesia:

pássaros cintilantes

a hera de fogo

a terra fumegante

por ora

me esquecem.


apenas um sussurro em que se adivinhe

a palavra.

apenas um sopro onde o vento

sequer é lembrado,

o repouso em que se entranha

o recém-nascido.


nada dele cresce

que não se emende em um balouçar

de folhas

(uma oração

cresce na noite

reivindicando

as causas perdidas).


A borboleta do momento atravessa o espaço

vaga, frágil

mas real.

26.4.24

Deixo passar a imagem

de uma certa dor: dentro,

confrontam-se em mim

as aquarelas possíveis.


Aprendo que o mundo é sempre

outra coisa. Desfaço

com as cores permanentes

o laço.


E durmo, carente de mudanças.

E sonho, no repouso,

o que ainda não sei ser, 

escutando no silêncio,

vislumbrando no etéreo

o movimento do mundo.


29.5.22

epílogo


 Diz-me das tuas feridas abertas,

do ocaso, já lânguido,

na exausta pálpebra.


Diz, para que o meu silêncio

afunde nossas mãos em hera

e o verde de outrora


nos apodreça, erguendo

palma a palma, em muro,

o pó dos dias caídos.


20.1.22

 As horas da manhã se incendiaram 

em dentes roxos:

é sempre tarde.


(na imensidão do corpo

produzíamos adiamentos,

sussurros)


tu me conduzias pela ponte

rumo ao precipício -

eu em tempo de olhar pétalas.


e sem nenhum sobreaviso

sempre à vista de um gavião

pulávamos.



13.12.21

 há tantos livros tantos

e para cada um deles uma infinidade de linhas -

em cada linha uma vasta composição

escondendo séculos de vida e morte.


há tantos homens tantos

e para cada um deles uma infinidade de sombras -

em cada sombra uma vasta promessa

diluída em silêncios & feixes de luz.


não: nada importa

senão diminuir o passo frente ao precipício

e contemplar em face ao delírio de flores na escarpa

a queda.

26.3.21

entendo que é preciso o mistério 
que me fará não poder descrever 
teu seio 
tua boca
a curva do teu pescoço: 

o teu corpo substantivo 
morando nele a pergunta 
a dor ancestral 
o abismo composto de um 
isto

20.2.21

traço um painel 

fino 

em brisa.

o vento aconchega as palavras

em dois ou três delírios.


durmo no senão das missas,

no preceito enrugado das filas

:

algo queima do outro lado.


observo.

20.6.20

talvez porque desistir também seja um ato
deponho as armas
e deslizo entre o mínimo:

veredas
sussurros
um quadro antigo preso
na retina do tempo.

como isto de sermos
senão por aquilo que se denega:
os objetos do porão.

remanejar
à faca sem gume
à boca já seca
à semente já rota
um passo atrás

para o futuro.

16.6.20

pergunta aberta

eu?

22.2.20

então a voltou a escrever como quem volta dos mortos
e mais preciso, porque despojado
da precedente histeria -
ah o jovem louco partira-se
cansado
e só uma lágrima cristalizada
um fio cortante da dor
perpassava-o
(sabendo que nada é importante
nada, nem escrever
nem estar vivo)

12.2.20

Se eu não terminar ungido
Se eu não correr do perigo
Se eu não rezar só por egoísmo

Se eu dormir sem sonhos

Se eu não abraçar o inimigo
Se eu não amar por vaidade
Se eu me envaidecer sozinho

Se eu cuspir o excesso

Se eu não me abster do hálito da noite
Se eu não sorrir de desespero
Se eu não desesperar na morte

Já está bom.

1.12.18

não tenho o tato dos deuses
nem a fúria das crianças
:
a sorte me despiu.

pela janela, os olhos
dançam entre frutos de árvores
e arlequins.

já os dedos trançam um destino,
esquecidos de si
e de mim.

5.1.18

"[...] Já escrevi sobre esse corpo, sobre as dores que causei a outros e as que eu mesmo me impus, gravei com fogo meus poemas sobre minha pele. Só os doentes, os fracos, os feridos, são capazes de criar obras mestras. Sinto que escrevi a partir de um certo irreparável desespero e, ao mesmo tempo, a partir de uma irrefreável alegria. Uma alegria estranha porque é como se nascesse da dificuldade de sermos felizes. Do encontro desses fantasmas nasce minha escrita. A escrita é como as cinzas que restam de um corpo queimado. Para escrever é preciso queimar-se inteiro, consumir-se até que não reste nem um fragmento de músculo nem de ossos nem de carne. É um sacrifício absoluto e ao mesmo tempo é a suspensão da morte. É algo concreto, quando se escreve a vida fica suspensa e, portanto, fica suspensa também a morte. Escrevo porque é meu exercício privado de ressurreição. [...]"

Raúl Zurita, poeta chileno.

20.3.17

Você, repisado. Dilacerado. Como uma conta que não fecha. Há a fabulação diária - um sol no qual é preciso crer -; uma renitência absurda, infame, heroica. Você se surpreende por ainda, no final das contas, ser capaz de sair da cama, compor gentilezas, fabular o humano; mesmo que em cada palavra ressoe o vazio, o grito, coisa-sem-nome entalada. Você não poderia, nem que quisesse, dar nome ao inferno: seu grande propósito é morrer entalado.

16.9.16

a escrita ainda é o que sobra.

nas sobras dela o destino cisca suas migalhas.

em cada migalha há um prenúncio.

o prenúncio é a porta-palavra de onde se parte.

o rio, no entanto, não deságua em nenhum mar.

há um fluir e um marulhar e uma cristalização

de seres que deslizam sob seu mistério.

todo mistério é uma derrocada antecipada:

é necessário despir-se de deuses e metafísicas

pois todo o oculto dorme sob o sangue.

de resto, nada mais.
sim senhora adornadora de sentidos
sim senhora domesticadora de trens
alucinatórios
o mundo cedeu os demônios mentiram
as rezas quebrantos maledicências
nos conduzem
sim vamos combalir senhora
pela voracidade dos vermes que ora
regurgitam
sua baba
- ainda não é hora -
sim os vermes a resiliência
o vírus adormecido no tempo
a catacumba no fundo dos olhos
um céu já desprovido do branco
um sangue já desprovido do vermelho
uma morte já desprovida do luto
senhora.
era tudo noite
os homens se desfaziam
era tudo noite
cães lambedores de sêmen
pétalas rijas
um olhar empedrado de lua.

era tudo sombra
de orações aprisionadas
era tudo sombra
de sexos e bocas cálidas.

sua boca arrefecia o luar
apagava o choro -

as crianças acordavam.

15.9.16

e já não há mais rotas
estamos rotos
sem pouso -
a letra é morta.

a dança acrobática
o riso louco
o passo mouco -
nada fere a casca.

a rima, se há,
se enquadra no poema -
há metro
diagram-
ação org
anicidad
e poética

fugi
                   fugi
                                                                       fugi

para onde

?

20.8.16

deâmbulo

estamos sozinhos,
não saímos:
arco-íris pintados nas paredes
amor em touchscreen
beijos de látex.

ainda na pele esverdeada
um filete de sangue
a lágrima invertida
o pau - animal resiliente -
babando.

ainda uma memória
semi-palpável.
ainda o acre
da faca nos dentes,
rangentes.

31.7.16


o papa em auschwitz

o papa esteve em auschwitz.
algo do papa esteve em auschwitz
quando suas mãos tocaram a pedra fria
já desvestida do horror.

o papa esteve em auschwitz
e uma criança e um santo
e o judeu esfomeado
clamaram em sua divinizada cabeça.

em auschwitz, o papa:
o rito da dor e da misericórdia
encontrou rostos contritos
e o vento lavrou cópia de tudo.

(câmeras, muitas câmeras,
flashes e tempo real e trajes a rigor
quando um papa em auschwitz)

em auschwitz o papa
de uma indumentária imaculada
encontrou bocas para as suas mãos
encontrou o papamóvel para as suas pernas

o papa não encontrou deus.

30.7.16

registro

lembro de uma vez ter escrito teu nome em pedra.
tu não sabes que escrevi
teu nome em pedra.

puro engano: hoje sei
que a pedra nada sabe do teu nome
nem teu nome - posto que não sabes - dela.

a pedra permanece, mercê de contratempos,
ígneas concavidades
e um registro alheio à sua natureza.

estranhos:
três seres hoje descompactados
além de um estrago
no peito
na pedra.

pois que me tornei o arauto do oco
do desplante
do descaso
da ferida -

do silêncio dito em mordidas
no pão seco
na palavra utilitária
no aceno desvalido.

sonâmbulo em vigília
abortado de contiguidades
assassinado sem vestígios -

há um frio de que não me abrigo
há um calor de que não disponho
há uma fome em que me entranho

e me estranho, ainda, apesar-de, estar.